Associação Hospitalar Bom Jesus...
Desde o surgimento do arraial “das Congonhas” no início do século XVIII, e principalmente após a oficialização dos festejos do Jubileu do Senhor Bom Jesus a partir de 1780, Congonhas não possuía nenhum recurso médico, a não ser os “práticos de plantão” que usavam do conhecimento popular para atenuar (ou até sanar) os males que afligiam a população.
No início do século XIX podemos encontrar alguns registros da presença de médicos em Congonhas, em especial durante o Jubileu, vindos de Ouro Preto ou Queluz (Conselheiro Lafaiete), para atender a população e principalmente os romeiros.
No início do século XX a grande transformação da região no entorno de Congonhas foi com o início da exploração das jazidas de minério de ferro, que demandou (e ainda demanda) uma grande mão de obra, criando a necessidade de postos médicos, como o que foi instalado próximo à mina Casa de Pedra pela empresa A. Thun Mineração na década de 1920. Estes postos de saúde, mantidos pelas empresas mineradoras, possuíam médicos e enfermeiros.
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Posto médico da A. Thun Mineração – Casa de Pedra – década de 1940 Foto/acervo: Museu da Imagem e Memória de Congonhas |
O primeiro médico congonhense:
O primeiro congonhense a se tornar médico foi Antônio Américo de Urzedo (aliás, um dos primeiros cirurgiões brasileiros) formado na década de 1820 na escola de medicina criada por Dom João VI, além de ter sido membro fundador da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, atual Academia Nacional de Medicina. Antônio Américo visitou sua terra natal em 1831 acompanhando Dom Pedro I e sua comitiva real, em viagem a Ouro Preto.
Os primeiros médicos em Congonhas:
Dr. Antônio Cândido de Assis Andrade era natural de Queluz (atual Conselheiro Lafaiete) e vinha com frequência a Congonhas em fins do século XIX e início do século XX para socorrer pacientes, principalmente durante os festejos do Jubileu, atendendo a solicitação da administração do Santuário do Bom Jesus. Dr. Antônio era pai do notável Djalma Andrade (que nasceu em Congonhas em 03 de dezembro de 1891, e com as distinções em bacharel em Direito, Poeta, Escritor e Jornalista).
Outros médicos de Conselheiro Lafaiete que vinham a Congonhas atender a população no início do século XX eram os srs. Dr. Naher Rodrigues, Dr. Mário Rodrigues Pereira, Dr. Narciso de Queiroz Neto e Dr. Raymundo Pacífico Homem.
Dr. Victorino dos Santos Ribeiro (irmão do notável bacharel em Direito – Alberto Teixeira dos Santos – 1º prefeito de Congonhas) foi um dos precursores médicos residentes em Congonhas (senão o primeiro), além de atender também em Conselheiro Lafaiete, desde o final da década de 1920.
Dr. Wenceslau de Souza Coimbra, natural de Dores de Campo/MG, chegou em Congonhas em 1935 recém-formado, onde fixou residência, se tornando um dos primeiros médicos da cidade. Foi médico dos Seminários Maior e Menor da Congregação dos Padres Redentoristas e médico particular de Dom Helvécio Gomes de Oliveira, Arcebispo de Mariana. Em 1947, ao lado do Dr. Oswaldo Gonçalves, Gumercindo de Souza Costa e de vários entusiastas, lutou pela construção do Hospital Bom Jesus vindo a ser o diretor do corpo clínico após sua inauguração. Foi ainda médico do IAPETC (atual INSS) em Congonhas e da Cooperativa dos Rodoviários do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), tendo exercido a medicina durante 40 anos.
Moacir Barbosa (“o Lucas da Farmácia”), congonhense, graduou-se em Farmácia na UFMG em 1944, e apesar de não ser médico por formação, atendeu centenas de pessoas que a ele recorria, dada a carência desse profissional em Congonhas ainda na primeira metade do século XX.
O Hospital Bom Jesus:
No limiar da década de 1940 Congonhas se tornara independente, emancipando-se de Conselheiro Lafaiete, e um dos grandes anseios da população congonhense era a construção de uma unidade hospitalar, inexistente até então na cidade. Todo enfermo de maior urgência era encaminhado para a vizinha Conselheiro Lafaiete para atendimento na “Santa Casa” (atual Hospital Queluz).
Congonhas não dispunha de um efetivo centro de tratamento e se fazia necessário tê-lo. Então, nasce no seio da sociedade congonhense o desejo de ter seu próprio centro médico/hospitalar. As famílias se unem voluntariamente em prol do mesmo ideal. E lançam mão de uma campanha para arrecadar donativos para a construção do tão almejado hospital, criando o “Movimento Pró Hospital Bom Jesus”.
Um dos passos fundamentais para a realização desse anseio foi dado pelo então prefeito Nicolla Falabela ao sancionar a lei municipal nº 56 em 18 de dezembro de 1949, que autorizava a administração municipal a doar um terreno de 1.542m2 localizado na rua Padre João Pio, e que pertenceu a Semirames Rodrigues Pereira, para o “Movimento Pró Hospital Bom Jesus”, fruto da iniciativa popular congonhense, em todos os seus extratos sociais.
Outro passo importante foi o de arrecadar fundos para a construção da obra, cujo projeto arquitetônico e estrutural coube ao arquiteto e engenheiro congonhense João de Melo Alvim, que os fez voluntariamente. Assim, foi formada uma comissão que ficou incumbida de arrecadar os recursos financeiros. Um dos melhores momentos para isso seria durante os festejos do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em setembro.
E com um “lençol branco” em mãos com os dizeres “donativos para o hospital Bom Jesus”, subiam e desciam a ladeira Bom Jesus dezenas de vezes durante os sete dias de festa, isso durante vários anos seguidos, conseguindo um valor monetário considerável para época que, somado às contribuições dos empresários, políticos, comerciantes e das famílias congonhenses, possibilitou erguer o prédio. O primeiro passo foi dado.
O folhetim quinzenal "Senhor Bom Jesus", em sua edição de 1º de setembro de 1956, na coluna "Crônica Local", trazia a relação dos primeiros benfeitores para a construção do Hospital Bom Jesus, que contou com a colaboração de todas as pessoas de boa vontade em Congonhas. Encabeçando a lista estavam Dom Helvécio Gomes de Oliveira, seguido pelo Dr. Pacífico Homem Jr., Dr. José Pacífico Homem, Horizontino Ferreira Vidal, Joaquim Frederico Ronki, Emílio Apes e Dr. Tibério Aboim.
A lista exibia ainda as empresas Minas Paraopeba S/A; Cia. de Mineração Ferro & Carvão; Cia. de Mineração da Serra da Moeda - Icominas S/A e Cia. Siderúrgica Cruzeiro do Sul, que colaboraram com importantes cifras para sua construção, somadas aos valores já arrecadados pelos “voluntários do lençol branco”.
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| Voluntários arrecadando dinheiro para a construção do hospital – início da década de 1950 - Foto/acervo: Museu da Imagem e Memória de Congonhas |
Equipar o hospital – o novo desafio:
Fruto do engajamento de praticamente todas as famílias da cidade, em 1956 o prédio já estava erguido, faltando os equipamentos hospitalares, mobiliários, e os materiais necessários ao seu pleno funcionamento.
Sua construção - coordenada pelo arquiteto e engenheiro João de Melo Alvim, coube ao mestre de obras Agostinho Catarino de Barros e com auxílio de seus irmãos Avelino, Vital e Oscar, renomados construtores congonhenses. Os irmãos Barros dividiram os trabalhos de construção com membros da tradicional família Souza Costa, que deram valorosa contribuição nessa fase da edificação do hospital.
Em uma nova etapa para conseguir finalizar esse sonho, os promotores da campanha pré-instalações do "Hospital Bom Jesus" fizeram uma nova investida, desta vez na cidade do Rio de Janeiro onde lá o tenente João Martins de Almeida, um dos voluntários nessa etapa, foi tentar obter junto à colônia mineira e à outras pessoas, recursos necessários para a montagem do Hospital.
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| O prédio do hospital em fase final de construção –1956 Foto/acervo: O Jornal - 19 de julho de 1956 - Edição nº 11.001 |
Também com o SESI/RJ (Serviço Social da Indústria - RJ) manteve o tenente João Martins entendimentos a fim de que aquela instituição doasse parte do material hospitalar, com esperanças, aliás, de que os entendimentos cheguem a bom termo, conforme noticiou “O Jornal”, em sua edição de nº 11.001, em 19 de julho de 1956.
Nessa fase eram os promotores da campanha os Srs. Wenceslau de Souza Coimbra, médico e Presidente das mesma, o Sr. Eleito Soares, Juiz de Direito de Congonhas e o tenente João Martins de Almeida, estando todos autorizados a receberem as doações para o futuro hospital.
E conseguiram. Com uma persistência tenaz, as doações foram acontecendo e os equipamentos sendo instalados nas dependências do hospital, finalizando assim a construção do prédio em fins de 1958, para o júbilo de todos os congonhenses.
A inauguração:
Após vários anos em construção, fruto da dedicação de centenas de pessoas (em sua maioria voluntários) e autoridades, o Hospital Bom Jesus finalmente entrou em funcionamento em 24 de maio de 1959, quando foi realizada a solenidade de inauguração, atendendo prontamente à população congonhense e também aos municípios vizinhos que não dispunham de recursos médicos.
Sua entrada principal localiza-se na rua que homenageia um dos benfeitores de Congonhas: Padre Leonardo Pluijmakers. A lei municipal nº 235 que denomina a rua, foi sancionada em 31 de outubro de 1958 pelo então prefeito José Theodoro da Cunha.
O presidente em exercício, Dr. Wenceslau de Souza Coimbra, conforme o estatuto vigente, convocou uma assembleia geral extraordinária para eleger o presidente da diretoria. Por indicação do Sr. João Borges da Cunha, foi aclamado por unanimidade o nome do Dr. Nicola Falabella - o primeiro presidente de sua diretoria.
Para auxiliar nos trabalhos da assembleia extraordinária como secretário foi convidado o Sr. José Gonçalves Faria. João Gonçalves Ferreira e Bernardinho Magalhães foram os escrutinadores da referida assembleia extraordinária de fundação do Hospital Bom Jesus.
Encabeçaram o movimento de criação do hospital os senhores fundadores: Dr. Antônio Pacífico Homem Júnior, Dr. Ary de Mello Belisário, Dr. Ernesto Schatz, Cornélio Souza Costa, Dr. Nicola Falabella, José Gonçalves de Faria, Sebastião Cardoso, João Borges da Cunha, Lavínio Themóteo da Silva, João Estevam de Paula, Herculano do Valle, Francisco Honorato de Freitas, Antônio de Freitas Sobrinho, José Fernandes Coelho, Felício Rossi, Joaquim Frederico Ronki, José Bento Pinheiro, Dr. Wenceslau de Souza Coimbra, Gumercindo Souza Costa, João de Mello Alvim, Mateus Palmieri, Agostinho Catarino de Barros e Oto Alvim de Andrade.
A primeira diretoria:
A primeira diretoria do Hospital Bom Jesus de Congonhas foi formada no ano de 1959 e ficou assim composta:
Provedor – Demóstenes de Souza Costa
Diretor Clínico – Dr. Wenceslau de Souza Coimbra
Irmã superiora – Irmã Eugênia Barbosa
1º tesoureiro – Sebastião Cardoso
2º tesoureiro – Antônio de Freitas Sobrinho
1º secretário – Joaquim Frederico Ronki
Conselho Fiscal – Manuel Seabra
Os primeiros profissionais da saúde:
O primeiro médico do hospital foi Wenceslau de Souza Coimbra que teve como auxiliares Joana Cecília Rezende e Maria de Lourdes Venturato, consideradas as primeiras profissionais de enfermagem do Hospital Bom Jesus.
Ainda como pioneiros na assistência médica destacamos os Doutores Alcides Rodrigues Dutra e Maurício Sebastião de Carvalho.
As primeiras pacientes:
Consta no livro de registros as senhoras Cléia Francisca Ferreira e Egle Candreva Cunha como sendo as primeiras pacientes do recém-inaugurado hospital.
O hospital e suas transformações:
O Hospital Bom Jesus existe como entidade filantrópica desde o início de suas atividades, porém a formalização como Entidade Filantrópica de fato, ocorreu a partir dos decretos, federal de 03 de novembro de1972, estadual de 05 de março de 1976 e municipal de 01 de fevereiro de 1980.
Em 1968 passaram a fazer parte do corpo clínico os médicos José Freire dos Reis e Syllas de Andrade.
Nessa época o hospital tinha uma estrutura muito simples e a direção era feita pelas Irmãs da Congregação Vicentina. Até o fogão era a lenha.
Em 1969 chegaram os médicos Wagner Ferreira de Souza, José Silvério Souza Costa e Joana D’arc Repolez Pereira.
Entre 1968 e 1972, durante a gestão do Dr. Syllas de Andrade, foram construídos apartamentos na área onde ficava a clausura das Irmãs Vicentinas.
Durante a gestão do Dr. Wagner Ferreira de Souza – 1972 a 1978, foi construída a maternidade e a cozinha, cujo projeto arquitetônico foi doado pelo arquiteto Décio Petersen Cypriano – cunhado do Dr. Wagner.
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| Vista panorâmica de Congonhas. O prédio do hospital em fase final de acabamento –1958 |
Nessa mesma época foi construído o prédio onde funcionam os consultórios médicos. Materiais e mão de obra foram pagos pelos médicos – Joana D’arc Repolês, José Freire dos Reis, José Silvério Souza Costa, Wagner Ferreira de Souza e pelo odontólogo João Bosco Bartholomeu. O administrador da obra foi o Sr. Gumercindo Souza Costa. Depois de 20 anos, conforme contrato de comodato, os médicos passaram a pagar aluguel e taxas de água e luz, agora na condição de locatários.
Entre 1979 e 1987 durante a gestão do Dr. José Freire dos Reis, foi realizada a construção do anexo ao Hospital, cuja finalidade inicial era a Pediatria. Todo o material foi comprado com recursos do Hospital. A mão de obra foi cedida pelo então prefeito municipal Gualter Pereira Monteiro. O projeto arquitetônico do anexo foi doado pelo Dr. Dalmo da Cruz Viana – sogro do Dr. Djalma Borges.
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| Vista panorâmica de Congonhas em 1973. O hospital em pleno funcionamento Foto/acervo: André Candreva |
Ainda na gestão do Dr. Freire o Hospital adquiriu lote de terreno que durante muitos anos serviu para a instalação da central de oxigênio, compressor de ar medicinal e o depósito para receber e descartar o lixo hospitalar.
Em 1988 o Hospital recebeu recursos oriundos de indicações políticas que possibilitaram a construção do Centro Cirúrgico (3 salas de cirurgia) que teve empenho especial do Dr. Wagner Ferreira de Souza e a doação do projeto arquitetônico pelo seu cunhado, o arquiteto Décio Petersen Cypriano.
No período entre 2005 e 2008 foi celebrado contrato entre a Secretaria Municipal de Saúde, cujo Secretário era o Sr. José de Freitas Cordeiro, e o Hospital para a implantação da escala de plantões de 24 horas nas especialidades básicas, clínica médica, pediátrica, ginecologia, obstétrica, ortopédica, cirúrgica e anestesiológica.
Nesse período o Dr. José Silvério Souza Costa iniciou um processo de revitalização do Hospital com a instalação da subestação de energia elétrica, elevador de quatro estágios para deslocamento de pacientes, criação de novas enfermarias masculina e feminina para pacientes do SUS, implantação do sistema de ar medicinal comprimido, novo ambulatório, aquisição de materiais de hotelaria, equipamentos médicos, autoclave, aparelho de RX digital.
Em 2020 o hospital recebeu ampliações e melhorias, como a moderna Unidade de Terapia Intensiva (UTI), contando com dez leitos.
O Hospital Bom Jesus recebe contribuições e doações de pessoas, inclusive dos próprios médicos e de Entidades, que reconhecem o espírito filantrópico do hospital, que pertence à comunidade. Um exemplo foi o legado deixado pelo Padre Benedito Pinto da Rocha, que fazia mensalmente a doação de parte do dízimo arrecadado durante sua administração no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, ação que ainda é mantida pelo atual Reitor da Basílica.
São muitos os profissionais que ali passaram e dedicaram grande parte de suas vidas em prol daqueles que necessitavam de cuidados médicos.
Da iniciativa da comunidade congonhense e após quase sete décadas de funcionamento, o Hospital Bom Jesus ofertou, e continua a ofertar, relevantes serviços de saúde à população de Congonhas e região.
Referências:
- Jornal Senhor Bom Jesus – edição nº 739 – 1º/09/1956
- O Jornal - Edição nº 11.001 – 19/07/1956
- Roberto Candreva e Dr. José Freire dos Reis (relatos)






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