Hotel Santuário – “o majestoso” ...

Hotel Santuário - 1968 - acervo Revista O Cruzeiro

Inserido no complexo arquitetônico da Basílica do Bom Jesus de Matosinhos e instalado em um edifício de arquitetura singular, o Hotel Santuário é parte integrante do fabuloso cenário histórico e religioso de Congonhas.

De suas amplas janelas e sacadas é possível contemplar a monumental obra artística e religiosa do Santuário, elaborada por inúmeros artífices, dentre eles o grande mestre Antônio Francisco Lisboa.

A partir da chegada em fins de 1923 dos padres da Congregação Redentorista, o então distrito de Congonhas do Campo passou por profundas transformações religiosas, sociais, políticas e estruturais. 

A começar pela ampla revitalização no entorno da Basílica do Bom Jesus com as demolições das casas dos romeiros – conhecidas como “varanda” e “sertão”, do próprio seminário Santo Afonso - demolido e reconstruído, afastado cerca de 8 metros da igreja para melhor circulação dos fiéis, e a construção de um amplo abrigo de romeiros, que atualmente conhecemos como “Romaria”.

Mas faltava um hotel de maior requinte que oferecesse mais conforto a hóspedes mais exigentes, e autoridades que visitam Congonhas anualmente.

Assim surgiu a intenção de se construir um edifício que abrigasse um majestoso hotel com ampla vista para o Santuário, para a nova casa dos romeiros, para o lado “Matriz”, e para o conjunto maravilhoso de serras que circundam e emolduram a paisagem congonhense.

O Santuário do Bom Jesus através de sua administração redentorista, confiou ao construtor Humberto Boratto, e seu filho Odoni Boratto, a execução do projeto arquitetônico em estilo neoclássico do futuro hotel. As obras se iniciaram em 4 de janeiro de 1936 e pelas mãos dos irmãos da família Barros - Agostinho, Avelino, Oscar e Vital, notáveis por suas habilidades em alvenaria e carpintaria, exímios mestres da construção civil em Congonhas, o hotel se materializou.

Em ritmo acelerado, a obra foi concluída em fins de março e sua inauguração aconteceu em 3 de abril de 1938 com a realização de uma pomposa solenidade promovida pelos Redentoristas. Sua principal finalidade era hospedar os parentes dos padres, seminaristas ou romeiros de maior poder aquisitivo. O imponente e amplo hotel possui 130 quartos, 8 apartamentos, banheiros, gabinetes, sala de visita, salão de refeições, varanda e balcões com janelas para todos os lados, em seus dois pavimentos, além do piso térreo que, como previsto no projeto, foi utilizado pela Tipografia Bom Jesus¹, fundada em Congonhas em 1924 pelo padre Godofredo Strybus. 

Fase de construção: demolição das antigas casas de romeiros - 1937 - Acervo Congregação Redentorista

Após uma assertiva negociação, a administração do Santuário confiou ao Sr. José Valentim e sua esposa Maria de Lourdes Gomes Valentim (a simpática “Dona Sinhá”) o arrendamento do novo empreendimento redentorista em Congonhas. 

Durante os festejos do jubileu de 1938 o hotel recebeu dezenas de hóspedes, encantados com suas modernas instalações e vista panorâmica do hoje cenário declarado pela Unesco como “Patrimônio Cultural da Humanidade”.

Anúncio publicitário - Jornal Correio da Manhã/RJ - edição nº 365 - 1940

Em seus apartamentos logo passaram a residir alguns proprietários ou gerentes das empresas mineradoras instaladas na região de Congonhas. Um deles foi o Sr. Pacífico Homem Júnior, que fez questão de escolher um dos aposentos com vista para a cachoeira de Santo Antônio e Romaria. Ali residiu por mais de uma década.

O amplo salão-refeitório do hotel logo passou a ser utilizado para eventos sociais e políticos. Um deles foi em 12 de maio de 1940 quando recebeu os prefeitos de Congonhas, Conselheiro Lafaiete e Entre Rios de Minas (outrora João Ribeiro) para uma reunião, seguida de um almoço, onde anunciaram o resultado dos esforços para iniciarem a reconstrução da rodovia que liga Congonhas a Entre Rios de Minas, passando pelos distritos de Alto Maranhão e São Brás do Suaçuí, próspera área agrícola e pastoril da região. Na reunião estavam também presentes os engenheiros Pierri H. Geisweiller e Robson Mota, representantes das prefeituras de Congonhas e Conselheiro Lafaiete, o Dr. Milito, promotor da Comarca de Conselheiro Lafaiete, Arnaldo Rodrigues Pereira, representante do prefeito de Conselheiro Lafaiete, e Aristides Francisco Junqueira, representando o Prefeito de Entre Rios de Minas, além de outros convidados.

E o primeiro hóspede estrangeiro foi o austríaco Stefan Zweig, renomado escritor, romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo, em setembro de 1940, logo após o Jubileu. Zweig se encantou com as obras de Antônio Francisco Lisboa ao expressar a frase: "só um milagre de gênio pode explicar as obras de Aleijadinho". Ficou ainda maravilhado com as belezas naturais que circundam Congonhas, comparando-a com as belas cidades históricas italianas e destacando-a como cidade alegre e hospitaleira.

Em 17 de janeiro de 1941 foi a vez do cronista e redator do jornal Correio da Manhã/RJ, Magalhães Correa e sua esposa, excursionistas por Minas Gerais, ficarem hospedados durante 2 dias no hotel Santuário. Durante a estadia fizeram uma detalhada descrição sobre Congonhas, publicada em duas partes no citado jornal nos dias 17/08 e 21/09 de 1941, ressaltando a hospitalidade com que foram recebidos pelo gerente José Valentim.

Outro evento marcante que o hotel abrigou foi o primeiro "Grande Retiro Espiritual Recluso de Vicentinos", promovido pelo Conselho Particular da Sociedade de São Vicente de Paulo de Congonhas sob a coordenação do Sr. Joaquim Rodrigues de Brito, iniciado em 07 de janeiro de 1942, e que durou 5 dias. O retiro recebeu os vicentinos e demais homens católicos de todo o Brasil, e foram acompanhados pelos padres redentoristas que realizaram os exercícios espirituais de Santo Inácio, orações, missas, meditações, conferências, terços, visitas ao Santuário do Bom Jesus de Matosinhos e bênçãos do SS. Sacramento. 

Em 1943 foi a vez da Seleção Mineira de Futebol ficar hospedada no hotel Santuário. O escrete mineiro se preparava para disputar o Campeonato Nacional de Seleções Estaduais de 1944, e craques como o goleiro Kafunga (Olavo Leite Bastos) do Clube Atlético Mineiro e o atacante Orlando Fantoni, do Cruzeiro, marcaram presença durante os 12 dias de preparação, que foram realizados no Estádio Pedro Arges, localizado no bairro Praia (atualmente de propriedade do Clube Esportivo de Congonhas).

Outra personalidade famosa que se abrigou no hotel Santuário foi a afamada pintora húngara Karola Szilard Gabor, que esteve em Congonhas nos idos de 1946. Aqui ela retratou a igreja do Bom Jesus de Matosinhos e a ladeira Bom Jesus. Estes quadros, pintados a óleo, fizeram parte da exposição que ela organizou no salão do Instituto de Arquitetos do Brasil, no Rio de Janeiro/RJ, a partir de 17 de maio de 1947, ao lado de outros trabalhos de sua autoria, com grande destaque da impressa nacional.

Pintora húngara Karola Szilard Gabor - 1946 - Acervo Museu da Imagem e Memória

E pela primeira vez em Congonhas um elenco cinematográfico aqui chegava para gravar cenas do filme “Almas Adversas”, em meados de 1947. Hospedados no hotel Santuário, a película teve como diretor Léo Marten, a atriz Bibi Ferreira, e os atores Graça Mello e Ambrósio Fregolente – protagonista da trama, que retratou um homem simples que veio até Congonhas, para cumprir uma promessa diante do Bom Jesus, mas não imaginava as diversas surpresas e peripécias que apareceriam em seu caminho. O filme fez sua estreia nos cinemas brasileiros em novembro de 1952.

No final do mês de setembro de 1948 foi a vez do Embaixador francês no Brasil, Hubert Guérin, visitar Congonhas e se encantar com as obras do mestre Lisboa. Hubert Guérin e sua comitiva almoçaram no restaurante do hotel Santuário, onde se deliciaram com a típica comida mineira, preparada e servida sob a supervisão da “Dona Sinhá”, a esposa do amável gerente José Valentim.

Ainda falando de Diplomatas, em princípio de abril de 1950 foi a vez do Embaixador da Turquia no Brasil, Sr. Fuad Carim, acompanhado de seu Secretário, Sr. Afonso Bandeira de Melo, visitar Congonhas. Fuad Carim estava escrevendo um livro em que focalizava o Brasil sob vários aspectos. Um deles era referente ao barroco mineiro, em particular as obras aqui deixadas por Antônio Francisco Lisboa, e dessa feita, Fuad Carim permaneceu por 2 dois dias hospedado no hotel Santuário.

Outro famoso hóspede que circulou pelos corredores e salões do hotel Santuário foi o afamado cineasta brasileiro Lima Barreto no ano de 1950, que produziu o filme "Santuário", inteiramente rodado em Congonhas exaltando a genialidade do Mestre Aleijadinho e seus Profetas. No filme aparece o "Zé Christino", um senhor descoberto por Lima Barreto e transformado em "astro" no documentário. A película “Santuário” recebeu em fins de agosto de 1951 o prêmio "Leão de São Marcos" no festival de Veneza, Itália, como "melhor filme sobre arte". Que honra para Congonhas.

Após mais de uma década recebendo hóspedes (famosos ou não) e recepcionando os mais variados eventos, Congonhas era tomada de por uma triste notícia: falecia o Sr. José Valentim, fato ocorrido em 30 de junho de 1952, causando consternação na comunidade congonhense, pois era uma pessoa estimada e querida por muitos.

Maria de Lourdes Gomes Valentim – a “Dona Sinhá”, agora viúva e órfã na administração do hotel Santuário, teve que se desdobrar para continuar o legado deixado por seu saudoso companheiro. Ao lado dos filhos ela tentou seguir em frente, mas devido às dificuldades, declinou e passou adiante a administração do hotel.

O casal Paschoal Vartuli e Onésima Ataydes Vartuli (Zizinha) foi convidado a administrar o Hotel Santuário nesse época. Como já possuíam experiência na administração hoteleira (administravam o “Grande Hotel dos Viajantes” defronte a estação ferroviária), aceitaram o desafio devido à insistência e à ajuda financeira através de empréstimos por amigos do casal como o Sr. João Borges da Cunha e o Sr. Aristides Francisco Junqueira, o popular Zico. Havia uma expressiva dívida a ser quitada o que tornava inviável a continuidade da operação e afastava quaisquer interessados a administrar o hotel. Dessa forma o casal assumiu o hotel, entre os anos 1957 e 1960, rebatizando-o para “Hotel Colonial”.

Ainda em 1960 o casal Aymoré Cantuária e Anita (que naquela época eram hóspedes no Grande Hotel dos Viajantes), foi convidado a assumir a gerência do Hotel Colonial passando ali a residir. Assim, Zizinha e Paschoal ficaram responsáveis pelas realizações de eventos sociais como festas de casamentos, reuniões festivas de diversos grupos, recepção de autoridades que visitavam a cidade, etc. 

Quando foi encerrado compromisso de atuar na gerência pelo Aymoré e Anita, o casal Zizinha e Paschoal se mudou para o Hotel Colonial, em 1966, assumindo definitivamente sua gerência. E logo idealizaram e concretizaram no primeiro piso, o restaurante Cova do Daniel. O projeto elétrico e sua execução coube a Francisco Vartuli, enquanto seus irmãos, Paschoal Vartuli (Pasqualzinho) e Vágner ficaram responsáveis pela construção e instalação das luminárias. O construtor Quiliu e o exímio marceneiro jeceabense Expedito Ferreira foram os responsáveis pela execução dos serviços de alvenaria e carpintaria.

Tipografia Bom Jesus - funcionou nas dependências do hotel entre 1939 até 1967

Formado o conjunto hotel Santuário e restaurante Cova do Daniel, este foi palco de grandiosos e memoráveis acontecimentos sociais congonhenses, onde marcaram presença ilustres personagens nacionais e internacionais.

O ex-presidente Juscelino Kubitschek foi um deles. Carlos Lacerda, o primeiro Governador do extinto Estado da Guanabara foi outro hóspede ilustre além dos ex-governadores de Minas Gerais José Francisco Bias Fortes, José de Magalhães Pinto, Rondon Pacheco e Tancredo Neves. Recebeu também o ex-ministro dos transportes Eliseu Resende dentre inúmeros outros políticos que passaram por seus corredores e quartos.

Das autoridades estrangeiras, acolheu o Primeiro Ministro português, Mário Soares, em visita a Congonhas no ano de 1986.

Embaixadores estrangeiros, artistas, profissionais de renome além de executivos de grande projeção se hospedaram no Hotel Santuário ao longo de sua história.

Restaurante Cova do Daniel instalado nas dependências do hotel - inaugurado em 21/07/1969

Em junho de 1966 eram iniciadas em Congonhas as gravações do filme "Cristo de Lama". Com direção de Wilson Silva e roteiro de Sanin Cherques, Jorge Dória e Dias Gomes, o elenco contava com os atores Geraldo Del Rey, Maria Della Costa, Renato Consorte, Milton Vilar, Fábio Sabag e Raul Cortez. O drama biográfico retrata a vida do escultor ouropretano Antônio Francisco Lisboa ("Aleijadinho"). O Santuário do Bom Jesus de Matosinhos serviu de cenário natural para grande parte das cenas do filme, que também foi gravado em Ouro Preto. Vários atores, além do diretor e roteiristas ficaram hospedados no Hotel Santuário durante as locações das cenas. O filme fez sua estreia no cinema nacional em 1º/08/1968 e foi sucesso de bilheteria.

Em 1968, durante as gravações do filme “A Madona de Cedro” em Congonhas, todo o elenco do filme ficou hospedado no Hotel Santuário. O Diretor Carlos Coimbra e os atores Leonardo Vilar, Leila Diniz, Anselmo Duarte, Sérgio Cardoso, Cleyde Yaconis, Jofre Soares e o polonês Ziembinski fizeram do agradável ambiente do hotel sua morada durante as locações em Congonhas.

Hospedaram-se também os atores Adolpho Chadler, Wilson Viana e Gilda Medeiros integrantes do elenco do filme “Tesouro de Zapata” que teve várias cenas gravadas em Congonhas ainda no ano de 1968.

A renomada escritora Nélida Pinõn, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), chegou em 24/08/1981 a Congonhas para escrever o livro “República dos Sonhos”. Nélida refugiou-se durante 21 dias em total isolamento, hospedando-se no Hotel Santuário. Permaneceu discretamente na “Cidade dos Profetas” durante esse período para trabalhar em seu projeto. No hotel, alugou dois quartos e, em num deles, montou seu escritório, onde trabalhava de oito a nove horas por dia. Nélida Pinõn foi a primeira mulher a presidir a ABL. Após 21 dias morando em Congonhas, Nélida voltou ao Rio de Janeiro, onde terminou a escrita do romance A República dos Sonhos, publicado pela Editora Record em 1984, que, posteriormente, foi traduzido para o francês, inglês, espanhol, italiano, galego e chinês.

Em 1994, durante as gravações da minissérie da Rede Globo “Madona de Cedro”, serviu de base para toda a equipe de técnicos que acompanhava o elenco.

Na década de 1990 o hotel passou a ter nova administração. 

Atualmente desativado, o imponente edifício que abrigou o Hotel Santuário é hoje parte indivisível do maior cenário barroco mineiro. 

Vista área - 2023

¹ - Funcionou nas dependências do hotel até 1966 quando foi desativada.


Referências:

Jornal O Bom Jesus – edições 239, 331, 440 e 450
Jornal A Noite - edições: 12/05/1940, 28/09/1940, 07/11/1940, 12011941, 02/10/1947
Jornal Correio da Manhã - edições: 17/08/1941, 21/09/1941, 12/12/1942
Jornal Correio da Semana - edições: 14/11/1940, 24/01/1941, 28/10/1943,
Jornal O Progresso - edição 20/04/1978
Revista de Arquitetura - edição de 1947
Revista O Cruzeiro – edições: 1963, 1967 e 1968

Blog História de Congonhas e Região - https://historiadorpaulohenrique.blogspot.com/

Depoimento:

Roberto Candreva - 21/04/2024

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