O Jubileu de 1895: uma festa realizada em meio a uma crise
O Jubileu de 1895: uma festa realizada em meio a uma crise
Em 1895, a administração do Santuário estava no centro de uma disputa entre a Diocese de Mariana, representada por Dom Silvério Gomes Pimenta, e a antiga Mesa da Irmandade do Senhor Bom Jesus de Matosinhos.
A documentação da época é bastante explícita. O mandato da Mesa havia terminado em 17 de fevereiro de 1895. Dom Silvério, por meio de uma Pastoral de 18 de abril, considerou irregular a permanência dos antigos administradores e constituiu uma Mesa Administrativa Provisória. A antiga Mesa, porém, resistiu à determinação episcopal.
A situação chegou ao ponto de exigir a intervenção do Poder Judiciário. Em 23 de julho de 1895, Dom Silvério requereu ao juiz de direito da comarca de Queluz a entrega judicial dos bens da Irmandade à Mesa Provisória. Houve resistência dos antigos mesários, e o próprio despacho judicial previa o sequestro dos bens em caso de desobediência.
Esse ato de Dom Silvério muda bastante a compreensão do Jubileu: não se tratava simplesmente de uma festa religiosa ameaçada por uma epidemia; a própria autoridade que deveria organizar o Santuário estava em disputa.
A preparação da festa:
Apesar do conflito, a Mesa Administrativa Provisória decidiu realizar o Jubileu.
Em 15 de agosto de 1895, foi publicado um aviso assinado pelo juiz da Irmandade, Padre Cândido Vellozo, pelo tesoureiro Dr. Antônio Gomes Carmo e pelo secretário Miguel Cordeiro, anunciando que o Jubileu seria celebrado “com toda a formalidade”. O anúncio informava ainda que a festa seria precedida de missões religiosas, para as quais haviam sido convidados pregadores de destaque de Minas e de outros Estados.
Esse documento (aviso) é fundamental porque demonstra que, oficialmente, a organização já estava decidida a realizar a festa, apesar da crise.
Outro aviso, publicado no fim de agosto, revela uma preocupação concreta com a hospedagem dos peregrinos. A administração informou que, durante o Jubileu, os prédios, romarias e casas pertencentes ao Santuário não seriam alugados, mas ficariam à disposição dos irmãos e romeiros sem qualquer ônus.
Ou seja, a organização mobilizou a infraestrutura do Santuário para receber a multidão.
A intervenção de Dom Silvério:
Ao mesmo tempo em que a Mesa Provisória preparava a festa, Dom Silvério endurecia sua posição.
Em 1º de setembro de 1895, publicou uma determinação dirigida aos sacerdotes da Diocese de Mariana. Nela, reafirmava sua Pastoral de 18 de abril e declarava que qualquer sacerdote que prestasse auxílio à chamada “Mesa intrusa”, participando de missas, sermões ou presidências relacionadas à administração da Irmandade e do Santuário, ficaria automaticamente suspenso do exercício da ordem e da jurisdição na diocese.
E esse documento é extraordinariamente importante, pois nos mostra que, às vésperas do Jubileu, havia duas questões diferentes:
- a Diocese defendia a legitimidade da Mesa Administrativa Provisória;
- e a antiga Mesa continuava contestando a intervenção episcopal;
Dom Silvério tentava impedir que sacerdotes legitimassem a administração que considerava irregular.
Portanto, quando a festa começou, a questão administrativa ainda estava longe de estar resolvida.
A “notícia” de que o Jubileu seria cancelado:
É nesse ambiente que surgiu a notícia de que o Jubileu não seria realizado.
A tradição historiográfica local, registra que a disputa entre a Irmandade e a Diocese alimentou notícias de que a festa seria cancelada em virtude de um novo surto de varíola.
A epidemia não era uma ameaça imaginária. A varíola vinha provocando preocupação sanitária na região e já havia interferido em celebrações religiosas no início da década de 1890. E o problema era suficientemente sério para mobilizar as autoridades sanitárias.
Mas a informação de que o Jubileu seria cancelado não se confirmou.
A festa aconteceu.
E isso é particularmente significativo porque a documentação oficial publicada em agosto já afirmava que o Jubileu seria realizado “com toda a formalidade”.
A preocupação sanitária:
Diante do risco de epidemias, foram mobilizados médicos de diferentes localidades para assegurar o atendimento durante a grande concentração de peregrinos.
A questão sanitária fazia parte do contexto da festa e o temor da varíola era suficientemente forte para ser usado como justificativa para os rumores de cancelamento.
7 de setembro: o início do grande movimento
O período de 7 a 14 de setembro corresponde ao ciclo tradicional do Jubileu, e a festa era precedida por missões e intensa atividade religiosa. O modelo tradicional incluía missas sucessivas, pregações, confissões e procissões.
A partir do início do período jubilar, Congonhas transformava-se completamente.
Os romeiros chegavam de diversas regiões, muitos percorrendo grandes distâncias a pé ou a cavalo. O Santuário colocava suas hospedarias à disposição dos peregrinos, e a própria estrutura do complexo religioso era mobilizada para acolher a multidão.
9 de setembro: a chegada de Dom Silvério
O congonhense Dom Silvério Gomes Pimenta, então bispo auxiliar de Mariana e bispo titular de Câmaco, chegou a Congonhas durante o Jubileu. Sua recepção foi solene e popular. Ele dirigiu-se inicialmente à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, onde foram realizados discursos dos professores congonhenses João Martins de Souza Leal e Nero Seabra.
Depois, uma procissão conduziu o prelado pela localidade em direção ao Santuário. As bandas de música de Congonhas e Tiradentes participaram da solenidade. Na Igreja de São José, houve uma parada para a execução de hinos sacros.
A procissão prosseguiu até o adro do Santuário, onde Dom Silvério foi recebido com um solene Te Deum.
E essa cena nos permite imaginar uma dimensão especial quando confrontada com a documentação episcopal: o homem recebido triunfalmente pelos fiéis era justamente a autoridade que, poucos dias antes, havia proibido os sacerdotes de reconhecerem a antiga Mesa da Irmandade.
A contradição central do Jubileu:
Dom Silvério estava simultaneamente em duas posições:
- Como autoridade eclesiástica, pretendia reorganizar a administração do Santuário e retirar o controle da antiga Mesa;
- Como congonhense e líder religioso, participava pessoalmente da maior festa religiosa de sua terra natal.
Assim, Dom Silvério apresentava sua intervenção como uma tentativa de colocar o Santuário sob uma administração mais disciplinada e de criar condições para novos projetos educacionais e religiosos. Uma informação importante foi divulgada nos jornais da época: a receita proveniente das doações do romeiros nesse período era estimada em mais de cem contos de réis, e esse avultado montante era questionado, desejando saber onde eram empregados os recursos, fruto das doações voluntárias.
Isso ajuda a compreender por que o controle da Irmandade era tão importante.
Não estava em disputa apenas uma questão protocolar: estava em jogo uma instituição que administrava um dos maiores centros de peregrinação de Minas Gerais e movimentava valores consideráveis.
10 a 13 de setembro: o auge da peregrinação:
Tradicionalmente, é neste período que ocorre o maior fluxo de peregrinos à Congonhas, dando forma ao já tradicional ciclo jubilar: missas, pregações, confissões, devoções, procissões e atendimento aos romeiros, acompanhado de intensa movimentação comercial e social.
A tradição do Jubileu já estava profundamente consolidada no século XIX, como a presença de sacerdotes de outras localidades, que eram convidados para auxiliar os capelães durante a festa, justamente porque a quantidade de peregrinos ultrapassava a capacidade normal do clero local.
A multidão e a dimensão econômica da festa:
O Jubileu também possui enorme importância econômica. E o resultado financeiro de 1895, conforme o balanço publicado pelo jornal "Minas Geraes" registrou:
- Rendimento total: 46:104$700 réis;
- Em dinheiro: 41:878$200 réis;
- Em objetos e animais: 4:326$500 réis.
Esse registro, precioso, demonstra com números, a dimensão econômica da peregrinação.
E há uma particularidade importante: o resultado foi apresentado pela Mesa Provisória da Irmandade, isto é, justamente pela administração que Dom Silvério havia colocado no centro da disputa.
14 de setembro: a Exaltação da Santa Cruz:
O dia 14 de setembro, festa da Exaltação da Santa Cruz, constitui o ponto culminante do Jubileu.
A tradição do Santuário estabelecia esse dia como encerramento da grande celebração de setembro, com as últimas missas, bênçãos e o sermão de despedida aos peregrinos.
Assim, o Jubileu de 1895 chegou ao fim não com a suspensão anunciada nos rumores, mas com a realização efetiva das solenidades.
E o resultado financeiro posterior demonstra que a festa não apenas aconteceu: teve arrecadação expressiva.
O que aconteceu depois?
O conflito administrativo não terminou com o Jubileu.
Pelo contrário: a crise continuaria nos anos seguintes.
Analisando os recortes de jornais, aviso e publicações referentes a Congonhas na década de 1890, nos evidencia que Dom Silvério pretendia transformar profundamente a administração do Santuário. Posteriormente, a situação financeira da Irmandade se revelaria ainda mais problemática. O padre Júlio Engrácia, que examinaria os livros da instituição anos depois, descreveu uma situação de grave desequilíbrio financeiro e administrativo.
Esse processo acabaria contribuindo para a intervenção definitiva da Diocese sobre a administração do Santuário no início do século XX.
Uma cronologia documental do Jubileu de 1895:
Data Acontecimento
17/02/1895 Termina o mandato da antiga Mesa da Irmandade.
18/04/1895 Pastoral de Dom Silvério contra a permanência da antiga administração.
23/07/1895 Dom Silvério solicita judicialmente a entrega dos bens da Irmandade à Mesa Provisória.
15/08/1895 Mesa Provisória anuncia oficialmente o Jubileu e as missões preparatórias.
20/08/1895 Palácio Episcopal reafirma a irregularidade da antiga Mesa e de novos irmãos por ela admitidos.
24/08/1895 Santuário anuncia hospedagem gratuita para irmãos e romeiros durante o Jubileu.
01/09/1895 Dom Silvério determina que sacerdotes não auxiliem a antiga Mesa, sob pena de suspensão.
07/09/1895 Início do período jubilar tradicional.
09/09/1895 Chegada triunfal de Dom Silvério a Congonhas; procissão da Matriz ao Santuário e Te Deum.
10–13/09 Continuidade das celebrações, missas, pregações, confissões e peregrinação.
14/09/1895 Festa da Exaltação da Santa Cruz e encerramento do Jubileu.
Após a festa Mesa Provisória divulga balanço de 46:104$700 réis de receita.
As datas de fevereiro, abril, julho, agosto e setembro são particularmente bem documentadas pela imprensa oficial e pelos atos episcopais contemporâneos.
Conclusão:
O Jubileu de 1895 foi muito mais do que uma grande festa religiosa.
Foi um momento em que se cruzaram quatro forças:
- fé popular + poder episcopal + administração da Irmandade + interesses econômicos.
De um lado, milhares de romeiros mantinham viva uma tradição iniciada no século XVIII. De outro, Dom Silvério Gomes Pimenta tentava impor uma nova concepção de administração eclesiástica, reduzindo a autonomia da antiga Irmandade. Ao mesmo tempo, a receita extraordinária do Jubileu tornava o controle do Santuário uma questão econômica de primeira importância.
E tudo isso ocorreu sob o temor de uma epidemia de varíola e em meio a notícias de que a festa seria cancelada — notícia que acabou desmentida pelos próprios acontecimentos.
O Jubileu aconteceu. E aconteceu justamente no ano em que a autoridade de Dom Silvério sobre o Santuário começava a se afirmar de maneira decisiva.
Referências:
- Jornal "Minas Geraes" - edições de 1895 e 1896
- Jornal "O Pharol" - edições de 1895, 1896 e 1897

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